O outro lado da Copa do Mundo 2014: Confira as favelas prejudicadas no Rio e em outras Capitais

Postado por Flávio Coutinho - 7 de dezembro de 2012 - Política - Nenhum Comentário

Dentro de poucos anos o Brasil será sede dos dois eventos esportivos mais importantes de todo o mundo, que são a Copa do Mundo Fifa de Futebol, em 2014, e as Olimpíadas em 2016. A comoção nacional é grande pelo fato de o país ter conquistado o direito de receber a maior competição do esporte que é paixão por aqui, ou seja, do futebol, motivo de alegrias e emoções aos brasileiros desde o passado remoto. No entanto, pessoas que estão vivenciando de perto a corrida para a preparação de tais eventos não estão tão festivas assim, e lutam pela própria sobrevivência. A Copa e as Olímpiadas abordam, além da festa esportiva, outras questões que não são nada amigáveis. Confira agora uma síntese de como é a vida das pessoas no Rio de Janeiro que têm suas casas ameaçadas pelas construções gigantescas, e também um panorama geral de outras cidades que receberão os eventos e suas respectivas populações.

A equação da Copa no Brasil

Estádio Mané Garrincha

Estádio Mané Garrincha

A Copa do Mundo não é apenas um megaevento esportivo. Ela também traz ao país uma enorme visualização internacional, visitas de milhões de turistas e, consequentemente, obras monumentais, tornando-se, portanto, um evento com forte poder econômico e político. O fato é que o os jogos precisam acontecer de forma luxuosa, seguindo as rígidas exigências propostas pela Fifa. Como se sabe, o Brasil não dispõe dessa tal infraestrutura. Faltam estádios, os gramados não são qualificados e o transporte beira um colapso. Logo, algo muito grande precisa ser feito e de maneira rápida, pois 4 anos é pouco tempo para tantas mudanças.

Seguindo pela equação, o Brasil praticamente precisa ser maquiado. Entende-se por “maquiagem” a intenção de o governo tornar as rodovias mais acessíveis, os aeroportos mais organizados, o transporte público mais tranquilo e as favelas mais desenvolvidas, ou pelo menos as favelas que ficam perto dos estádios onde acontecerão jogos. A partir da apresentação de como tudo funciona nos bastidores de uma Copa do Mundo, o leitor pode entender de forma mais clara o que realmente está acontecendo nas periferias do Brasil, especialmente nas do Rio de Janeiro.

Especulação imobiliária e despejos

 

Favela da Rocinha

Favela da Rocinha

O resultado de toda a equação mostrada acima é a especulação imobiliária e financeira ocorrida nas zonas onde a Copa será mais presente. O processo não envolve apenas o estádio de futebol. É importante ter em mente que a rota do turista estrangeiro passa por aeroportos – por onde chega de outro país; por rodovias – por onde vai ao estádio; por hotéis – onde se hospeda durante quase um mês de competição; por restaurantes – onde se alimenta. Logo, quase uma cidade inteira precisa ser mudada.

Dessa forma, as favelas, que contêm construções precárias e mal vistas, estão sendo alvo de empreiteiras que visam lucros na região. A mando do governo ou da iniciativa privada, tanto faz, essas empresas praticamente expulsam os moradores de favelas. O governo, por sua vez, especialmente o do Rio de Janeiro, oferece às pessoas o chamado Aluguel Social, valor que corresponde à mísera quantia de R$400,00. É basicamente um auxílio a esses moradores que terão que deixar suas casas.

As UPP’s como estratégia

 

Upp (Unidade de Polícia Pacificadora)

Upp (Unidade de Polícia Pacificadora)

Outro ponto forte que está sendo evidenciado pela resistência à Copa é a construção das UPP’s (Unidade de Polícia Pacificadora). Segundo vários documentários feitos especialmente no Rio de Janeiro, elas foram instaladas nas favelas com um objetivo muito contrário ao que foi apresentado. Na teoria, a polícia no morro combate o tráfico. Na prática, ela está apenas tornando a área mais calma e pacífica para que os investimentos possam ser feitos sem que haja a interferência da violência dos traficantes.

Marcelo Freixo, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro nas últimas eleições, disse em um documentário feito por moradores de várias comunidades da cidade que “as tomadas do crime, tão propagadas pelos veículos de comunicação, são tomadas do crime em áreas estratégicas para os grandes investimentos”, enfatizando a ideia de que a real intenção das UPP’s passa longe dos interesses sociais, visando somente a questão financeira e investidora. Freixo, no entanto, vai ainda mais além: “as UPP’s não se tornaram um instrumento de enfrentamento à milícia.

A Zona Oeste e a Zona Norte são regiões amplamente dominadas pela milícia. Milícia é máfia.” O político trouxe a questão para um parâmetro que pode ser bem claro à sociedade, o de que interesses políticos e investidores são travestidos de projetos sociais, oriundos de um governo onde a corrupção paira. Para ele, é a “primeira vez que o crime organizado tem projeto de poder, dialoga com o Palácio, elege gente”, dando a entender que o fato de a próxima Copa do Mundo ser aqui no Brasil fez com que o crime se elevasse a âmbitos muito maiores.

Muda a estratégia, mas não muda o objetivo

 

IIncêndio  Morro do Piolho em São Paulo

Incêndio Morro do Piolho em São Paulo

Passando para outra metrópole onde os problemas não são menores, São Paulo enfrenta problemas parecidos. Segundo a Defesa Civil da cidade, 34 incêndios foram vistos nas favelas da cidade. Vários deles atingem larga escala, podendo citar o que aconteceu neste mês de novembro na Favela do Moinho, o qual matou uma pessoa e deixou ao menos 300 desabrigadas. Em setembro, o Morro do Piolho teve cerca de 40% de sua área destruída por um incêndio cujas causas são desconhecidas. Para grande parte da população afetada por tais “acidentes”, a causa e o motivo são bem claros:

tornar a desocupação das favelas mais simples, com o pretexto de que elas foram destruídas pelo fogo. Em seu blog, Raquel Rolnik, relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, postou o seguinte comentário: “é bastante estranho que favelas que já passaram por situações muito mais precárias e propensas a incêndios do que hoje – a existência de barracos de madeira, por exemplo – estejam pegando fogo exatamente agora, no contexto de um dos mais altos booms do mercado imobiliário paulistano”. Para muitos, é exatamente a intenção de uma máfia que está propagando esse terror nas periferias paulistanas.

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